Desafio da telessaúde está em o gestor pensar, planejar e agir com foco em saúde digital

Artigo Desafio da telessaúde está em o gestor pensar, planejar e agir com foco em saúde digital
Data:

12/11/2021

Experiências bem-sucedidas do RS, SC, MG e GO mostram que o atendimento remoto é eficiência para diminuir as filas por especialidades no SUS

Na manhã do último dia da 3ª edição do Global Summit Telemedicine & Digital Health, realizado em formato virtual pela Associação Paulista de Medicina (APM), em parceria com o Transamerica Expo Center, professores especialistas das Universidades Federais do Rio Grande do Sul (UFRGS), de Santa Catarina (UFSC), de Minas Gerais (UFMG) e de Goiás (UFG) apresentaram suas experiências de implantação da telessaúde no Sistema Único de Saúde (SUS).

Roberto Umpierre, coordenador-geral do Projeto Telessaúde do RS – projeto de pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Faculdade de Medicina da UFRGS, criado em 2005, que tem como objetivos qualificar os profissionais de saúde, eliminar distâncias e diminuir o tempo de espera no atendimento –, explicou que, na atenção primária à saúde (APS), o acesso e a integralidade são fortemente influenciados pela coordenação do cuidado, que recebe impacto positivo da articulação de ações de telessaúde para a regulação da assistência.

“Criamos uma metodologia de telerregulação (Projeto RegulaSUS) baseada em protocolos específicos firmemente alicerçados em evidências. A partir de dados do sistema de regulação e do Telessaúde RS exploramos os efeitos do RegulaSUS na APS e no acesso ao cuidado especializado. A metodologia foi capaz de criar protocolos abrangentes, com expressiva redução média da fila de consultas especializadas de 30% em 360 dias”, contou Umpierre.

A iniciativa reduziu o tempo de espera na marcação de consultas em especialidades clínicas (média de 66 dias), mas não em cirurgias. Segundo o coordenador-geral, os tempos de espera nos casos mantidos em fila variaram de forma inversa, aumentando em especialidades clínicas e diminuindo em cirurgias.

Para o coordenador-geral, foi com a implementação do serviço de consultoria, em 2013, que passou a dar suporte para que médicos, dentistas e enfermeiros do interior do Estado do RS, falassem em tempo real com especialistas e sanassem suas dúvidas e resoluções de problemas de saúde, que os resultados foram mais eficientes.

“O resultado foi mais de 270 mil teleconsultorias respondidas, encaminhamentos evitados em 75% das discussões”, frisou Umpierre.

O Telessaúde UFSC é um dos núcleos que compõem o Programa Nacional Telessaúde Brasil Redes, e atua em todo o território nacional, com parcerias estabelecidas desde sua origem.

O programa foi criado no Ministério da Saúde (MS) , em 2007, mas em 2005 a Secretaria de Estado da Saúde (SES-SC) já havia dado início a uma proposta de exames a distância com oferta de laudos por especialistas, por meio do Programa Estadual de Telemedicina. A proposta foi facilitar o acesso do cidadão aos exames médicos de média e alta complexidades, iniciando seu piloto com a emissão de laudos a distância para eletrocardiogramas e exames laboratoriais.

“Também foi implantada uma rede digitalizada para facilitar a comunicação intra-hospitalar para serviços de imagem, como ultrassonografia, tomografia computadorizada, ressonância magnética e raio-X. A estrutura tecnológica do sistema de telemedicina foi desenvolvida no Departamento de Informática e Estatística do Centro Tecnológico da UFSC”, comentou Harley Miguel Wagner, coordenador do Serviço de Telediagnóstico do Telessaúde da UFSC.

Em 2007, quando o MS criou o Programa Telessaúde Brasil, o estado catarinense já possuía experiência em telemedicina e uma considerável cobertura de rede, sendo um dos nove estados selecionados para estabelecer um dos Núcleos Estaduais de Telessaúde e ofertar os serviços de teleconsultoria, tele-educação e segunda opinião formativa.

Por três anos, Telemedicina e Telessaúde UFSC atuaram com plataformas e objetivos específicos diferentes, até que em 2010  foram integrados, formando o Sistema Catarinense de Telemedicina e Telessaúde (STT). Passou a ofertar, numa mesma plataforma, laudos a distância de diversas modalidades, acesso dos pacientes aos exames, webconferências, minicursos e teleconsultorias.

“Atualmente, o Telessaúde SC, em parceria com a SES-SC e algumas secretarias municipais, tem cobertura para 100% dos municípios do estado (295), com oferta de todos os serviços previstos no Programa Nacional, consolidando-se como uma importante ferramenta de apoio assistencial e educação permanente dos profissionais do SUS”, destacou, Wagner.

Porém, conforme o coordenador do serviço de Telediagnóstico do Telessaúde UFSC, ainda é preciso superar alguns os obstáculos para que a teleconsulta e o atendimento remoto sejam eficientes em todo país.

“O desafio da telessaúde está em o gestor pensar, planejar e agir com foco em saúde digital. Também é preciso se pensar na sustentabilidade, já que se definiu por projetos oriundos do MS, sujeitos constantemente a interrupções; e não disputar com o setor privado, já que a demanda despertou o interesse acelerado desse segmento em desenvolver e vender serviços nessa modalidade”, alertou Wagner.

Financiamento e pesquisa

Antonio Luiz Pinho Ribeiro, professor titular do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG,  informou que em 2001, em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte (SMS-BH), iniciou-se o desenvolvimento de um modelo de telessaúde para apoio à APS, com foco na teleassistência e teleducação.

O primeiro financiamento veio em 2003, com a inclusão da telessaúde no Projeto HealthCareNetwork, integrante do Projeto @LIS da União Europeia. Como consequência, em 2004, o Projeto BHTelessaúde foi implementado nos Centros de Saúde da SMS-BH, com objetivo de oferecer teleconsultorias síncronas e assíncronas, e tele-educação aos profissionais de saúde. A parceria na UFMG se expandiu para a Escola de Enfermagem e Faculdade de Odontologia, que se incorporaram efetivamente no projeto.

Em 2005, o projeto tomou novos rumos com a aprovação do Projeto Minas Telecárdio, em parceria com a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, a  FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais) e FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), iniciando-se o desenvolvimento da telecardiologia.

“A partir de 2006/2007, a participação no Projeto Piloto Nacional de Telessaúde do MS e a aprovação de novos convênios com a SES-MG, propiciaram uma gradual expansão dos serviços de telessaúde, estruturados na telecardiologia (análise e laudo de eletrocardiogramas-ECG e teleconsultorias on-line) e teleconsultorias off-line em todas as áreas da saúde. Também em 2006, o HC da UFMG participou do projeto Rede Universitária de Telemedicina (RUTE), da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP)”, destacou Ribeiro.

Em janeiro de 2015, 2 milhões de eletrocardiogramas  e 65 mil teleconsultorias já tinham sido realizadas com a cobertura de 722 municípios.

“Esses resultados foram reconhecidos por diversas instituições nacionais e internacionais, que concederam à RTMG sete prêmios nacionais e um internacional”, salientou Ribeiro.

Já a experiência goiana, começou há 14 anos, com o Núcleo de Telemedicina e Telessaúde da Faculdade de Medicina da UFG (NUTTs), e durante este período a adesão de mais de 200  municípios goianos, atuando em apoio à APS.

Um dos primeiros passos foi a estruturação do sistema de consultoria educacional para assistência à comunidade com a atividade específica de teleconsultoria on-line e off-line. Atualmente, orienta mais de 40 especialidades da medicina e inclui ainda as áreas de odontologia, enfermagem, nutrição, psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia, farmácia, assistência social e veterinária, com enfoque em saúde pública, Biologia e

E como a saúde ocular, segundo Alexandre Taleb, professor de Telemedicina da Faculdade de Medicina da UFG, é muitas vezes entendida pela comunidade apenas como aferição de grau de visão para uso de óculos, ela mereceu atenção.

Foi criado o Programa Permanente de Detecção das Principais Causas de Cegueira, que tem como meta de atendimento pacientes acima de 50 anos e diabéticos acima de 12 anos de idade, para detecção de retinopatia diabética, catarata, glaucoma e degeneração macular relacionada à Idade. Todas essas doenças, se diagnosticadas e tratadas precocemente, obtêm melhores resultados.

“O Núcleo Telessaúde Goiás ocupa hoje lugar destacado no cenário nacional, com um desempenho dos mais atuantes no país”, afirmou Taleb.

Newsletter

Inscreva-se e acompanhe as novidades sobre o Global Summit Telemedicine & Digital Health e APM - Associação Paulista de Medicina.